Uma semana em Cusco: meu relato de viagem honesto, dia a dia
Dia zero: pousar, não comer nada, dormir
Nas semanas antes da viagem, li todos os artigos sobre aclimatação que consegui encontrar. Todos diziam a mesma coisa: chegue devagar, beba água, descanse no primeiro dia. Nenhum deles me preparou de verdade para a sensação concreta da altitude quando se desembarca no Aeroporto Alejandro Velasco Astete e as pernas parecem pertencer a outra pessoa.
Cusco fica a 3.400 metros acima do nível do mar. Isso não é abstrato. É aproximadamente o dobro da altitude do pico mais alto dos Alpes que a maioria dos caminhantes britânicos já escalou. A pressão do ar é visivelmente menor, e os pulmões, que passaram a vida inteira ao nível do mar, ficam confusos.
Peguei um táxi até o hotel em San Blas — negociei 20 PEN com a fila oficial na saída do aeroporto, o que pareceu justo — e fiquei deitado na cama olhando para o teto por uma hora. Depois saí para tomar uma tigela de sopa, bebi dois canecões de chá de coca, dei uma volta lenta pela Plaza de Armas por vinte minutos e fui dormir às nove da noite. Foi, objetivamente, um dia muitíssimo entediante. E foi a decisão certa.
Dia um: a cidade, com calma
A dor de cabeça tinha sumido pela manhã. Desci de San Blas até o centro — uma descida suave que ainda assim me deixou ofegante mais do que deveria — e passei a manhã me orientando em vez de marcar pontos turísticos.
O centro histórico de Cusco recompensa esse tipo de caminhada sem rumo. A rua Hatunrumiyoc, a poucos minutos da Plaza, tem a famosa pedra inca de 12 ângulos encaixada na parede do que hoje é o Palácio Arzobispal. Os turistas fazem fila para fotografá-la, e confesso que eu também fiz — mas o que ficou na memória foi o trecho de muro inca que se estende por cem metros antes e depois dela: preciso, sem argamassa, sem equivalente moderno.
Encontrei o templo do Qorikancha à tarde. A igreja colonial de Santo Domingo foi construída diretamente sobre ele no século XVII, e os muros incas que sobreviveram sob o claustro são extraordinários — pedra curva com acabamento dourado que um dia foi revestida de folhas de ouro reais, arrancadas pelos espanhóis. A entrada de 15 PEN é o melhor custo-benefício da cidade.
Jantar num restaurante na rua Plateros: lomo saltado e um pisco sour. A altitude faz com que uma bebida tenha o efeito de duas. Estava na cama às dez.
Dia dois: Sacsayhuamán e os sítios menores
No segundo dia me senti genuinamente aclimatado — ou pelo menos funcionalmente capaz. O Boleto Turístico — o ingresso combinado que cobre a maioria dos sítios incas ao redor da cidade — custa cerca de 130 PEN para o circuito parcial. Ele cobre o Sacsayhuamán e os três sítios menores ao longo da estrada para Pisac: Tambomachay, Qenqo e Puca Pucara.
Sacsayhuamán fica a quinze minutos de subida da Plaza. A caminhada da cidade até o sítio sobe cerca de 200 metros de altitude e fiz tudo devagar, parando duas vezes. O sítio em si — ameias em ziguezague feitas de blocos de calcário monolíticos, os maiores pesando cerca de 300 toneladas — está em uma escala diferente de qualquer outra coisa na cidade. Fique na plataforma superior em uma manhã límpida de setembro e você tem a cidade inteira de Cusco abaixo e os Andes acima.
Os três sítios menores são mais facilmente alcançados de táxi (cerca de 5 PEN até o primeiro, depois se caminha entre eles). Tambomachay, o complexo ritual de água, é genuinamente belo. Qenqo, o afloramento de calcário esculpido usado para fins cerimoniais ainda debatidos por arqueólogos, é o mais estranho. Passei muito tempo lá e tive o lugar quase completamente para mim.
Uma visita guiada de meio dia pela cidade cobre esses sítios com um guia capaz de explicar o que você está realmente vendo — o que, se a história inca é novidade para você, faz uma diferença enorme no quanto você absorve.
Dia três: Vale Sagrado
No terceiro dia participei de uma excursão de um dia ao Vale Sagrado — o vale fluvial que corre a noroeste de Cusco em direção a Ollantaytambo, entre 2.800 e 3.000 metros de altitude. A diferença de 400 metros a menos não é trivial: respira-se com mais facilidade, dorme-se melhor e a paisagem se abre em algo mais amplo e menos imediatamente urbano.
O passeio partiu às 8 da manhã e foi primeiro a Pisac, onde o mercado de domingo estava em plena atividade — uma mistura de comércio local genuíno na parte de baixo e os esperados artigos têxteis para turistas mais acima. As ruínas incas com terraços acima da aldeia são dramáticas e quase sempre subestimadas pelos visitantes que ficam ao nível do mercado.
Depois de Pisac, o roteiro continuou até Maras (as salinas que produzem sal desde antes dos incas, descendo a encosta em terraços branco-rosados) e depois Moray (os terraços agrícolas circulares, tidos como um laboratório inca de cultivo que aproveitava os gradientes de temperatura entre os níveis). Os dois valem o tempo.
O dia terminou em Ollantaytambo, onde os terraços da fortaleza sobem em degraus quase verticais acima da cidade e a malha urbana inca viva abaixo deles ainda é habitada. Tomei uma cerveja num café com vista para as ruínas ao entardecer e por um momento considerei largar tudo e ficar para sempre.
Dia quatro: Machu Picchu
Havia reservado o trem e a entrada separadamente, com antecedência — reservar o trem uma semana antes da viagem já estava apertado para setembro, que é alta temporada. O trem de Ollantaytambo a Aguas Calientes leva cerca de uma hora e quarenta minutos por um cenário cada vez mais dramático de desfiladeiros fluviais e chega a uma cidade que é essencialmente turística, ao pé do sítio.
O ônibus de Aguas Calientes até as ruínas leva vinte e cinco minutos por uma estrada sinuosa. Na entrada, com a primeira luz de uma manhã clara, o sítio se abriu diante de mim e fiquei parado por pelo menos dois minutos sem me mover — o que não é meu modo de operação habitual.
Machu Picchu a 2.430 metros parece nível do mar depois de Cusco. O ar é mais fácil, a vegetação é tropical e não andina. Percorri o Circuito 3 — o roteiro baixo que abrange as principais características arquitetônicas — e depois voltei para uma segunda passagem pelo Templo do Sol e pela Pedra Intihuatana.
O sítio enche entre 10h e 14h. Cheguei no primeiro ônibus e saí no trem da 1 da tarde de volta a Ollantaytambo. A excursão de um dia de trem a partir de Cusco é genuinamente uma das grandes viagens de um dia no turismo mundial; digo isso como alguém que já a fez duas vezes.
Dias cinco e seis: a cidade em profundidade
Usei os dias cinco e seis para cobrir o que havia pulado na primeira metade da semana.
O quinto dia foi dedicado a San Blas, o bairro artesanal acima da Plaza, e ao Museo Inka na rua Huaynabamba, que tem a coleção mais abrangente de artefatos incas da cidade — incluindo os famosos vasos de madeira qero e um impressionante acervo de têxteis. A entrada custa cerca de 15 PEN.
No sexto dia passei duas horas no Mercado de San Pedro de manhã — tomei café da manhã em um dos balcões internos, percorri as bancas de produtos frescos e tentei identificar as variedades nativas de batata apenas pela cor. Depois caminhei pelo bairro atrás do mercado e subí em direção ao cemitério de Almudena, que os turistas quase nunca visitam e que tem uma qualidade extraordinária de camadas sobrepostas — barroco colonial no centro, nichos modernos na periferia, tudo emoldurado pelas colinas andinas.
Dia sete: Rainbow Mountain, com honestidade
Não vou fingir que a excursão à Rainbow Mountain foi uma experiência confortável. O micro-ônibus guiado parte de Cusco por volta das 4h da manhã para chegar à trilha da Vinicunca antes das multidões. A trilha começa a cerca de 4.900 metros e o cume fica a 5.200 metros — quase 1.800 metros acima de Cusco.
Senti a altitude na subida de um jeito que não havia sentido em nenhum momento durante a semana. Meu ritmo desacelerou para algo com que uma tartaruga idosa se identificaria. Mas a montanha, quando as nuvens se abriram no topo, justifica o desconforto: as encostas com manchas minerais em camadas de vermelho, ocre, branco e verde não se parecem com nada que já vi. Parece uma amostra geológica ampliada até o tamanho de uma montanha.
Estava de volta a Cusco às 15h e deitado na cama às 15h15. Foi a forma certa de encerrar a semana.
O que eu faria diferente
Duas coisas. Primeiro, teria me hospedado em Ollantaytambo nas duas primeiras noites em vez de Cusco — dormir a 2.800 metros em vez de 3.400 torna a aclimatação mais suave e a primeira visita a Cusco, no terceiro dia, fica muito mais fácil. Segundo, teria comprado o ingresso para Machu Picchu com pelo menos três semanas de antecedência em vez de uma, principalmente para qualquer data entre maio e setembro, que é a estação seca.
Para informações completas sobre planejamento, consulte o guia de quantos dias ficar em Cusco e o itinerário de 5 dias Cusco-Machu Picchu. Uma semana é o tempo certo para fazer isso direito sem pressa.