Skip to main content
Dormindo numa ilha flutuante — meu diário de homestay no Lago Titicaca

Dormindo numa ilha flutuante — meu diário de homestay no Lago Titicaca

A noite mais fria que passei num lugar quente

Isso parece uma contradição, então deixa eu explicar. A noite que passei numa casa de família na Ilha Taquile — no meio do Lago Titicaca a 3.812 m acima do nível do mar — foi genuinamente, no fundo dos ossos, fria, da forma como as noites em altitude sempre são. E ainda assim a cozinha da família, onde jantamos à luz de velas e de um único queimador de querosene, foi de alguma forma um dos lugares mais acolhedores em que estive há muito tempo. O calor era atmosférico, não térmico.

Tinha chegado de ônibus de Cusco a Puno no dia anterior — quatro horas e meia no altiplano, passando por pequenas cidades quéchua-falantes e paisagens que parecem a superfície de outro planeta. Puno fica a 3.830 m, ainda mais alto do que Cusco, e senti a altitude imediatamente ao chegar. Não era soroche exatamente — sem dor de cabeça, sem náusea — mas a vaga pesadez nos membros e uma sugestão firme dos pulmões de que não estavam operando em plena capacidade.

As ilhas flutuantes dos Uros: impressões honestas

O tour partiu do porto de Puno às 7h30. O barco cortou o lago aberto por cerca de 45 minutos para chegar às ilhas dos Uros — as extraordinárias ilhas flutuantes construídas inteiramente de junco de totora, que crescem nos baixios do Titicaca. O povo Uros originalmente construiu essas ilhas como medida defensiva, recuando para a água quando ameaçado, podendo mover suas casas remando.

Vou ser honesto sobre o que as ilhas dos Uros são hoje. São uma parada turística. As famílias que lá vivem adaptaram sua economia em torno dos tours — há demonstrações de construção de ilhas, explicações sobre o modo de vida baseado em junco, pequenos estandes vendendo têxteis bordados e barcos modelo de junco de totora à venda. A ilha que visitei tinha talvez 30 a 40 pessoas vivendo nela. A experiência dura cerca de uma hora.

Vale a pena? Sim, dentro dos limites. As próprias ilhas são uma engenharia genuinamente notável — andar sobre elas é como andar sobre um colchão muito denso, com o lago visível nas frestas se você olhar de perto para a borda. O cheiro de junco de totora é específico e diferente de qualquer outra coisa. O efeito visual das ilhas marrons contra o lago de altitude impossivelmente azul, com os Andes bolivianos na outra margem, é singular.

Mas você deve saber o que vai encontrar. A comunidade tornou-se economicamente dependente do turismo de formas que moldam a interação. Digo isso sem julgamento — os Uros encontraram um meio de vida sustentável, e a alternativa não é algum modo de vida pristino pré-contato. Apenas calibre suas expectativas: é uma troca cultural com comércio integrado, não uma experiência etnográfica imersiva.

A travessia até Taquile

O barco continuou por mais uma hora e meia até a Ilha Taquile — uma experiência muito diferente. Taquile é uma ilha de 7 km de comprimento com uma população de cerca de 2.200 pessoas quéchua-falantes. É acessada por uma longa escadaria de pedra do cais — 533 degraus, e a 3.950 m esses degraus se anunciam. Parei três vezes. Meu companheiro, 25 anos mais jovem e consideravelmente mais em forma, parou uma vez. Vá com calma. Taquile em altitude é uma experiência que te coloca no seu lugar.

A ilha é famosa em todo o Peru por seus têxteis. Os homens de Taquile são os tecelões aqui — o oposto da tradição do continente — e a qualidade do trabalho é reconhecida pela UNESCO. Os chapéus estreitos (chullos), as bolsas finamente tecidas (chuspas) e as faixas elaboradas com padrões são genuinamente notáveis. A Arte Têxtil de Taquile foi inscrita na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO em 2008, o que tem significado aqui: a tradição está viva e não é encenada.

O homestay em si

Minha família de homestay morava a cerca de 20 minutos a pé do cais por caminhos de pedra. A casa era de adobe — tijolo de barro com piso de terra batida, um pequeno pátio com galinhas e três quartos. O meu tinha uma cama de solteiro com cinco cobertores, que usei todos. Não havia eletricidade exceto um pequeno painel solar que alimentava uma lâmpada na cozinha. A água vinha de um sistema de captação de chuva. O banheiro era uma casinha externa.

Nada disso foi um inconveniente. A família — uma avó, sua filha adulta e dois netos que me encaravam com curiosidade alegre — preparou um jantar de sopa de quinoa, truta do lago e batatas cozidas com um molho de ervas local. Só a sopa de quinoa valia a viagem. Quinoa do altiplano onde é realmente cultivada, num caldo feito da mesma forma que é feito há séculos, na altitude para a qual sempre foi destinada, não tem nenhuma relação com as tigelas de quinoa dos restaurantes ocidentais.

Comemos devagar, com linguagem compartilhada limitada mas considerável boa vontade. A avó me mostrou sua tecelagem. Eu lhe mostrei fotografias no meu celular. Nos comunicamos principalmente por expressões, gestos e risos.

A noite foi a mais fria que me lembro fora de trekking de inverno. Quatro daqueles cinco cobertores foram necessários.

Reserve um tour de dia inteiro aos Uros e Taquile a partir de Puno se quiser a versão de um dia — o circuito completo a partir do porto de Puno cobre as duas ilhas com um guia local que pode contextualizar o que você está vendo. A opção de homestay com pernoite em Taquile requer reserva antecipada através de uma agência de Puno.

Manhã em Taquile

O amanhecer em Taquile foi a manhã mais bonita de uma viagem que teve várias manhãs bonitas. A luz em altitude vem rápida e forte — o céu estava preto-tinta às 5h e azul vívido e pleno às 6h15. O lago a captou. Os picos bolivianos cobertos de neve na outra margem (do outro lado da fronteira, a cerca de 60 km a leste) estavam primeiro em silhueta e depois em cor. As encostas terracadas de Taquile, trabalhadas para agricultura desde os tempos incas, brilhavam.

Caminhei até a praça principal a tempo de ver a comunidade se reunindo — uma assembleia semanal em que os homens vestem seu traje tradicional (os chapéus vermelhos e brancos indicando se são casados), sentam juntos e discutem os assuntos comunitários. As mulheres usavam blusas bordadas e saias sobrepostas. Não era uma performance. Estavam tendo uma reunião.

A volta e a realidade de Puno

O barco de volta para Puno levou cerca de duas horas, e cheguei cansado, com frio e inesperadamente comovido pela experiência. Puno em si não é uma cidade bela — é um hub comercial para o altiplano, prático e um tanto rude — mas o lago fica a dez minutos do centro e o horizonte sobre ele é imenso.

Passei mais uma noite em Puno, comi num restaurante local perto do mercado (truta novamente, desta vez frita, com arroz con leche de sobremesa) e peguei o ônibus de volta para Cusco na manhã seguinte. O altiplano entre Puno e Juliaca é desolado de uma forma que achei instigante — vasta planície de gramíneas, flamingos nos lagos de sal, o ocasional conjunto de casas de adobe. O Peru contém paisagens tão diversas que exige múltiplas viagens para abarcar todas elas.

O roteiro de 10 dias no Peru entre Cusco e Titicaca cobre o circuito completo se você planeja combinar as duas regiões. O guia de vida selvagem do lago tem detalhes sobre o que existe dentro e ao redor do lago — os mergulhões gigantes, os flamingos, a rã endêmica — que meu barqueiro mencionou en passant e eu gostaria de ter sabido mais sobre com antecedência.